Ficha técnica de roupa: o que é e como montar
Aviso: Os valores deste artigo são fictícios para ilustrar a conta. Impostos e taxas dependem do seu regime; confira com um contador.
Se você produz roupas, em casa, em ateliê ou em uma confecção, já deve ter ouvido falar em ficha técnica. É o documento que descreve como uma peça é feita e quanto ela custa. Sem ele, cada peça sai um pouco diferente e o preço vira palpite.
O que é
Ficha técnica é uma folha (de papel ou de planilha) que reúne todas as informações para produzir um modelo de roupa de forma repetível. Quem corta, quem costura, quem confere e quem calcula o preço consultam a mesma ficha. Ela também ajuda quando você passa a produção para uma facção, porque o parceiro recebe tudo explicado.
Para que serve
- Padronizar: a camiseta do lote 2 sai igual à do lote 1.
- Calcular o custo: cada material e cada operação entram com valor, e o total é o custo da peça.
- Comunicar: costureira, cortador e facção entendem o que fazer sem depender de explicação verbal.
- Reproduzir: daqui a seis meses você faz o mesmo modelo sem reaprender tudo.
O que colocar nela
- Identificação: nome do modelo, referência, coleção, data e responsável.
- Desenho técnico: croqui da frente e das costas, com detalhes de costura, bolsos, golas e acabamentos.
- Tabela de medidas por tamanho: por exemplo, largura do peito, comprimento, ombro, manga e cintura, em cada tamanho produzido.
- Materiais: tecido (tipo, composição, largura e consumo por peça), forro, aviamentos (botão, zíper, elástico, linha), etiqueta, embalagem.
- Operações: lista da sequência de costura, com o tempo ou o valor pago por operação (corte, costura, overlock, acabamento, passadoria).
- Observações: pontos de atenção, como tipo de ponto, tolerância de medidas, lavagem e instruções de conservação.
- Custo total e preço: soma de materiais e operações, perdas, impostos e margem.
Como calcular o consumo e a perda
O consumo de tecido é a quantidade necessária para uma peça, incluindo encaixe dos moldes. Como o tecido sempre sobra um pouco no corte, acrescente uma porcentagem de perda. Exemplo fictício: uma camiseta consome 1,2 m de malha a R$ 28,00 o metro, o que dá R$ 33,60. Com 8% de perda, o custo real do tecido sobe para R$ 36,29 (33,60 × 1,08).
Exemplo de custo por peça (fictício)
| Item | Valor |
|---|---|
| Malha (1,2 m com 8% de perda) | R$ 36,29 |
| Linha, etiqueta e embalagem | R$ 2,50 |
| Corte | R$ 1,50 |
| Costura | R$ 4,00 |
| Acabamento e passadoria | R$ 1,50 |
| Custo por peça | R$ 45,79 |
Para chegar ao preço, aplique a fórmula: preço = custo ÷ (1 − impostos − taxas − comissão − margem). Com 6% de impostos, 5% de taxas e 30% de margem (valores fictícios): 1 − 0,06 − 0,05 − 0,30 = 0,59, e R$ 45,79 ÷ 0,59 = cerca de R$ 77,61. Esse é o preço de varejo para este exemplo; para o atacado, a margem costuma ser menor, e o desconto precisa caber na conta.
Erros comuns
- Esquecer a perda de tecido e as sobras do corte.
- Ignorar aviamentos pequenos (linha, etiqueta, embalagem), que somam.
- Não registrar o tempo de cada operação, o que impede ver onde está o gargalo.
- Usar a mesma ficha para tamanhos diferentes sem ajustar o consumo: peças maiores gastam mais tecido.
- Deixar a ficha desatualizada quando o preço do tecido muda.
Papel ou planilha?
No papel, funciona para poucos modelos. Em planilha, você cadastra os materiais uma vez e eles se atualizam em todas as fichas quando o preço muda, e dá para imprimir uma folha por modelo para a oficina. Se você trabalha com facções, vale incluir o controle de lotes enviados, devolvidos, defeitos e valor a pagar.
Resumo
A ficha técnica transforma "acho que essa peça custa uns R$ 40" em um número que você consegue defender. Comece por um modelo só, faça direito, e copie a estrutura para os próximos.